Coisas soltas, escritas sem sentido, num dia de ressaca

by Le petit bas-bleu

O meu cérebro hoje está de folga e deu ordens ao corpo para descansar. Deixou-me algumas capacidades que ainda me distinguem de um vegetal: consegui encomendar uma pizza, consegui não ter vontade de ver o “Mamma Mia” que estava a passar no caixote do lixo nacional, estou a conseguir atender o telemóvel e ouvir repetidamente a “Take This Waltz” do Leonard Cohen enquanto escrevo isto.

O mais incrível é que sinto-me mesmo bem. Às vezes sou assaltada por momentos de felicidade estúpida sem consumir drogas. Não sei qual é o efeito da cocaína, mas não deve andar muito longe, segundo relatos de actuais toxicoINdependentes. Também já pensei nisso, que talvez não me tenha passado ainda o estado de embriaguez, mas a essa conclusão não me apetece chegar.

Imaginem que um terrível génio da lâmpada ameaçava lançar-me da estratosfera contra o solo terrestre, se eu não aceitasse ficar cega, surda ou muda. O que é que eu escolheria?

Adoro música, adorava saber tocar piano, adorava saber tocar a Waltz from “Masquerade” do Khachaturian como uma chinesinha sobredotada. Adorava assistir a um clássico da Ópera no Palais Garnier impecavelmente bem vestida. Gostava de ir sozinha e perceber as entrelinhas.

Adorava ressuscitar o James Brown e dar-lhe um abraço. Acenar de longe ao Billy Corgan como um pedido de desculpas e beijar apaixonadamente o Julian Casablancas. Podia jurar que o vi ontem. Era igualmente feio e atraente, segundo os padrões. A propósito de guy types, descobri esta tarde que os judeus em geral agradam-me, a culpa é do Cohen. Cohen é mesmo nome de judeu, não sei como é que nunca tinha reparado.

Se ficasse muda teria de me reinventar. Como é que, sem recorrer à expressão escrita, poderia ser irónica, sarcástica, ressabiada, engraçada, ambígua? A ambiguidade neste caso não seria um recurso, mas um obstáculo. E pacientes ingleses para descodificar os meus 300 gestos?! Não.

A cegueira é dos males o menor.

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