Introspecções a terceiros – versão demo

by Le petit bas-bleu

Estou a dois passos dos 30 e cada vez mais analítica. Passaram mais de duas décadas desde a idade dos “porquês” e ainda estou cheia de dúvidas.

Às vezes gostava de ter engolido todos os dogmas da Santa Igreja e arrotado fé. Mãe, devias ter-me obrigado a continuar a catequese! Agora não tinha crises existenciais fora do prazo. Tomava um “remédio santo” e todas as minhas perguntas teriam a mesma resposta: “É a vontade de Deus!”.

Mas não, tinham que ser permissivos e atender aos meus caprichos. E agora? Acredito em quê? No amor fraterno? Não devia ser um dado adquirido, pelo menos, desde a Revolução Francesa? Liberté, Egalité, Fraternité! Devia, mas não é!

E se o grande Deus falasse concordaria comigo que Fraternité foi substituído por Hermès. Mas Deus não fala, “escreve direito em linhas tortas” e tem síndrome de Bartleby. Talvez seja esta a nossa única afinidade: preferir não fazer e acabar por não fazer nada.

Bem, esta confissão começa a dar frutos. Afinal eu sou um Bartleby, faz sentido.

Sou constantemente acusada de não gostar de nada e é verdade. Podia fazer uma lista infinita de certezas daquilo que não gosto, uma média do que gosto e uma assim-assim daquilo que não sei se gosto ou tenho medo de gostar.

Fui educada a não fazer fretes, a ser genuína, a ter frieza de pensamento e a não gostar de aprender a gostar. Alguém me convença do contrário, por favor, mas até hoje ainda não encontrei nenhuma explicação racional que me obrigue a enganar o que é emocional. É completamente falso.

Até ao fim da minha adolescência o meu pai foi o meu ídolo e se não me incutiu entre outras coisas boas, alguns disparates, eu imitei-o e fiquei assim.

Inconscientemente, ou com a melhor das intenções, ele sentou-me em cima de um muro alto sem ter onde me agarrar. Eu ali permaneci, como a menina que não pertence a nenhum dos lados do muro, a analisar.

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